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Como o pagamento influencia a qualidade do leite? PDF Imprimir E-mail
Seg, 15 de Agosto de 2011 08:25

Após a recente prorrogação por 6 meses para a entrada em vigor de novos padrões legais de qualidade do leite cru no Brasil (Instrução Normativa 32 do MAPA, 30/06/2011), a cadeia produtiva do leite tem aguardado com grande interesse a definição de quais medidas concretas deverão ser aplicadas para evitar futuros adiamentos. Houve certo consenso entre representantes dos vários segmentos (produtores, indústrias, governo) de que, a despeito de alguns avanços na questão da qualidade do leite, ainda são enormes os desafios para atingirmos padrões internacionais, principalmente quanto à higiene e saúde da glândula mamária. Desse modo, parece ser justificável esta prorrogação dos prazos, no entanto não se pode perder esta oportunidade para definição de um conjunto de medidas para alavancar a qualidade do leite.

Muitas destas medidas necessárias para a melhoria da qualidade são amplamente reconhecidas em relação à importância, eficácia e resultados esperados. Por exemplo, é inquestionável a necessidade de treinamento e capacitação de mão-de-obra, com foco principal nas boas práticas agropecuárias (manejo de ordenha, controle de mastite) dentro da fazenda e treinamento de transportadores (coletas de amostras). Isto somente para citar os pontos mais críticos na capacitação de toda a cadeia produtiva. No entanto, programas de treinamento de forma pontual têm resultados limitados e transitórios, caso não seja feito um monitoramento dos resultados e a adequação de medidas mais específicas dentro de cada propriedade.
Outro ponto de igual importância é a existência de uma boa assistência técnica, visto que o produtor necessita de apoio técnico-científico para a tomada de decisões e para identificar os pontos que podem ser melhorados. Atualmente, contamos com um conjunto de tecnologias simples e altamente eficientes para produção de leite de alta qualidade, dentro dos mais variados sistemas de produção do país. Recentemente, em um diagnóstico da cadeia produtiva do Estado de Goiás, cerca de 1/3 dos produtores apontou que o fator que mais contribui para a melhoria da qualidade do leite é uma assistência técnica eficiente.

O terceiro fator deste tripé de medidas básicas para melhoria da qualidade do leite é o sistema de pagamento. Todos os esforços para o aumento da qualidade devem ter como premissa básica a sustentabilidade econômica da atividade. Sem uma perspectiva de aumento de lucratividade, o avanço da qualidade é muito limitado. Com base neste conceito, desde a década de 1980, muitos países produtores de leite adotaram sistemas de pagamento com incentivos e penalizações sobre o preço do leite, em função de critérios objetivos de qualidade, como a contagem de células somáticas (CCS) e a contagem bacteriana total (CBT).

De todos as medidas apontadas anteriormente (treinamento, assistência técnica e sistema de pagamento), o papel indutor das empresas processadoras é fundamental, visto que grande parte das responsabilidades quanto a melhoria de qualidade deveriam ser compartilhados entre produtores e indústrias. Não se deve esperar do produtor investimentos para aumentar a qualidade do leite se não houver sinalização de retorno econômico. Considero que grande parte da motivação dos produtores para a melhoria da qualidade está ligada ao potencial de valorização do preço do leite, mas esta não é a única questão.

O pagamento diferenciado do leite baseado em critérios de qualidade da matéria-prima é, sem dúvida, um assunto altamente relevante, pois pode representar uma evolução do sistema de comercialização do leite e um aprimoramento das relações entre indústria e produtores. Isso permite premiar com uma bonificação extra aqueles produtores que dedicaram esforços e recursos financeiros para produzir uma matéria-prima superior, assim como penalizar o preço do leite de qualidade inferior.

A implantação de sistemas de valorização da qualidade pode ser considerada uma tendência em várias regiões e empresas do setor, contudo, é importante frisar que não existe vinculação entre pagamento por qualidade e regulamentação da qualidade (padrões legais mínimos de qualidade do leite). O objetivo de novos padrões legais de qualidade é definir critérios mínimos, os quais passam a ser obrigação de quem produz leite. Já o pagamento por qualidade não depende de novas normas, uma vez que estes programas consistem no pagamento de um prêmio para o produtor que fornece a matéria-prima com características diferenciadas, o que gera retorno para a indústria e consumidor. Isto se configura essencialmente como um acordo entre fornecedor e comprador, na dependência de peculiaridades de cada indústria e de cada região. Desta forma, mudança de legislação e pagamento por qualidade não devem ser considerados sinônimos, e em muitos casos não têm relação direta entre si. Além disso, as exigências de qualidade para o produtor receber bonificação do leite são muito superiores aos padrões legais, o que confirma que são dois temas que devem ser vistos de forma separada.

Para demonstrar a maneira como os produtores são influenciados pelos incentivos oferecidos nos programas de pagamento por qualidade, foi feito um estudo em uma cooperativa da região Sul do Brasil, durante o período de 3 anos. A cooperativa recebia leite de aproximadamente 1100 produtores, os quais foram submetidos previamente a um programa de treinamento e capacitação. Os produtores foram avaliados individualmente em relação a CCS, CBT e porcentagem de proteína e gordura, totalizando cerca de 20.000 análises realizadas durante o período. O sistema de pagamento incluía penalizações e bonificação em função dos resultados mensais das análises realizadas no leite. A CCS e a CBT foram altamente influenciadas pela introdução do programa de pagamento. Por exemplo, a CCS média dos rebanhos foi reduzida em 65.000 células/ml após a aplicação do programa. Da mesma forma, a CBT média dos rebanhos sofreu redução de cerca de 60%. Sendo assim, pode-se concluir que políticas de premiação por qualidade podem ser ferramentas importantes para a indústria, uma vez que as bonificações podem ser estabelecidas conforme as necessidades e objetivos de processamento da matéria-prima. Em termos de composição, não se observou os mesmos impactos, o que indica necessidade de um trabalho de médio e longo prazo para obtenção de resultados.

A aplicação somente de premiações, sem nenhuma política de penalização, mostra-se pouco efetiva, o que indica que uma combinação entre os programas de bonificação e penalização pode ser mais eficiente para redução da CCS e CBT. É importante destacar que o produtor é o fator mais importante para explicar variações na qualidade do leite, sendo que outros fatores como volume de leite diário e sazonalidade são aspectos de menor relevância. Isso indica que tanto produtores com pequena ou grande escala de produção podem responder aos incentivos dos sistemas de valorização da qualidade.

Para a implantação de um bom sistema de valorização da qualidade alguns aspectos operacionais são essenciais. Deve-se adotar procedimentos adequados e padronizados para coleta, transporte e análise de amostras de leite, assim como uma rápida comunicação dos resultados das análises para os produtores. A adoção de critérios realistas para bonificação e penalização é outro aspecto fundamental, pois se o produtor não perceber que os critérios para obtenção de premiações é compatível com a realidade, perde-se a credibilidade e o potencial de adesão do produtor é reduzido.

A implantação de sistemas de pagamento por qualidade pode permitir ganhos tanto dos produtores quanto das empresas. Estas últimas podem ser beneficiar com o recebimento de matéria-prima de qualidade superior, o que permite ganhos potenciais de rendimento de fabricação, aumento da vida de prateleira dos derivados lácteos, melhoria de imagem frente ao consumidor e maior capacidade de competitividade. Para os produtores, além da possibilidade de diferenciação do preço (tanto pelo aumento quanto pela redução), é uma importante sinalização sobre quais as medidas e investimentos devem ser adotados visando ao atendimento de padrões de qualidade e qual a demanda dos consumidores em relação a qualidade. Ainda que sejam essenciais, os sistemas de valorização da qualidade não devem ser as únicas estratégias a serem empregadas. Entretanto, quando usado de forma conjunta com programas de treinamento e assistência técnica pode ser uma excelente ferramenta melhoria consistente da qualidade do leite.

 

Fonte: Inforleite, julho/2011

Última atualização em Seg, 15 de Agosto de 2011 08:30
 


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